Após enredo sobre Lula, Acadêmicos de Niterói se diz perseguida e defende apuração justa
16/02/2026
(Foto: Reprodução) Acadêmicos de Niterói: veja trecho da comissão de frente 'O Amor Venceu o Medo'
A escola de samba Acadêmicos de Niterói divulgou uma nota pública nesta segunda-feira (16) na qual afirma ter sofrido perseguições durante o processo de preparação para o carnaval devido ao enredo escolhido, sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A agremiação defende que o julgamento do desfile seja “justo, técnico e transparente”.
A escola abriu os desfiles do Grupo Especial, na noite de domingo (15), e só depois se pronunciou oficialmente pela primeira vez sobre as críticas e ações geradas com o enredo, "Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil". A escolha da homenagem, em ano eleitoral, provocou críticas e ações judiciais da oposição (entenda abaixo).
"Durante todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida. Sofremos ataques políticos, enfrentamos setores conservadores e, de forma ainda mais grave, lidamos com perseguições vindas de gestores do próprio carnaval carioca", diz a nota (veja a íntegra no fim da reportagem).
"Houve tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e outras ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar. Não conseguiram", acrescenta a escola.
A Acadêmicos de Niterói também menciona o que chama de “histórico conhecido no carnaval” sobre o que chama de "narrativa injusta" de que “quem sobe, desce”, em referência à situação de escolas recém-promovidas da Série Ouro para o Grupo Especial, muitas vezes rebaixadas.
"Reafirmamos com firmeza que esperamos um julgamento justo, técnico e transparente, que respeite o que foi apresentado na Avenida e não reproduza perseguições, interesses ou pré-julgamentos", diz o texto.
Homenagem a Lula e menções a Bolsonaro
Acadêmicos de Niterói contou a história de Lula e fez representação do ex-presidente Jair Bolsonaro
Reprodução/TV Globo
A Acadêmicos de Niterói contou a história do presidente Lula desde a infância no Nordeste, passando pela migração com a família para São Paulo, o trabalho como torneiro mecânico e a liderança sindical, até a Presidência da República.
A comissão de frente levou para a Sapucaí uma representação da rampa do Palácio do Planalto, lembrando a última posse de Lula, ao lado de integrantes da sociedade civil. Atores e bailarinos também representaram o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e os ex-presidentes Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro.
O carro abre-alas representou a região onde o presidente Lula nasceu: o agreste pernambucano, com uma mistura de exuberância e escassez. Em um dos carros, a escola trouxe uma crítica às políticas sociais da época do governo Bolsonaro e à forma como ele enfrentou a pandemia. Na parte traseira, o carnavalesco fez uma referência à prisão do ex-presidente.
Polêmicas e ações judiciais
Ações na Justiça, alertas do TSE e orientações do governo antecederam desfile da Niterói
O enredo da Acadêmicos de Niterói foi alvo de pelo menos dez ações judiciais e representações no Ministério Público e no TCU que tentaram impedir o desfile ou suspender e reverter repasses de recursos públicos.
As iniciativas alegavam que trechos do samba e da apresentação configurariam propaganda eleitoral antecipada do presidente Lula – a Lei Eleitoral só permite propaganda após 16 de agosto.
Também houve pedidos para barrar a presença do presidente na Marquês de Sapucaí e para restringir manifestações consideradas ataques a adversários.
O caso chegou ao plenário do TSE, que, por unanimidade, negou liminar para proibir o desfile, sob o argumento de que a intervenção poderia caracterizar censura prévia. Ministros, porém, alertaram que eventuais condutas na Avenida poderiam ser analisadas posteriormente e resultar em punições.
Após o julgamento, o PT orientou integrantes a evitar atos que pudessem ser interpretados como propaganda antecipada.
O governo federal negou irregularidades, afirmou que não participou da escolha do enredo e sustentou que o apoio financeiro às escolas – outro ponto questionado pela oposição – é recorrente.
Depois do desfile, Lula elogiou a apresentação nas redes sociais. A oposição reagiu, com críticas e anúncios de novas medidas judiciais, novamente alegando promoção eleitoral antecipada e uso indevido de recursos públicos.
Lula e Janja na Sapucaí
O presidente Lula viu o desfile ao lado do prefeito do Rio, Eduardo Paes, no camarote da prefeitura, e das primeiras-damas Janja e Cristine Paes
Dilson Silva/AgNews
Havia uma previsão de que a primeira-dama, Janja da Silva, desfilasse em um dos carros alegóricos. No entanto, ela ficou no camarote ao lado de Lula.
Em nota, Janja afirmou que tomou a decisão apesar de haver "segurança jurídica para isso", e para evitar "possíveis perseguições à escola de samba e ao presidente Lula."
Nesta segunda (16), após o desfile, o Partido Novo anunciou que acionará a Justiça Eleitoral para pedir a inelegibilidade do presidente.
Segundo o presidente da sigla, Eduardo Ribeiro, "houve propaganda eleitoral antecipada financiada com dinheiro público".
Leia a íntegra da nota da Niterói:
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"A Acadêmicos de Niterói começa essa mensagem agradecendo, de coração aberto, à sua comunidade. O que vivemos na Avenida só foi possível graças à força do povo, à união dos nossos componentes e ao amor de quem nunca deixou essa escola caminhar sozinha.
Mas é preciso dizer a verdade.
Durante todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida. Sofremos ataques políticos, enfrentamos setores conservadores e, de forma ainda mais grave, lidamos com perseguições vindas de gestores do próprio Carnaval Carioca. Houve tentativas de interferência direta na nossa autonomia artística, com pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e outras ações que buscaram nos enquadrar e nos silenciar.
Não conseguiram.
Mesmo pressionada, a Acadêmicos de Niterói não se curvou. Nos posicionamos, resistimos e levamos para a Avenida um desfile verdadeiro, potente e coerente com a nossa identidade.
A força da nossa comunidade foi o nosso pilar. A aclamação popular foi a nossa resposta. O carinho do público foi o nosso maior prêmio.
Também não ignoramos o histórico conhecido no Carnaval: a narrativa injusta de que “quem sobe, desce”. Por isso, reafirmamos com firmeza que esperamos um julgamento justo, técnico e transparente, que respeite o que foi apresentado na Avenida e não reproduza perseguições, interesses ou pré-julgamentos.
A nossa mensagem ecoa clara, forte e sem medo:
🔥 EM NITERÓI, O AMOR VENCEU O MEDO🔥
Seguimos firmes.
Seguimos com o povo.
Seguimos atentos"."